Um título de capítulo que promete que alguém será preso durante o jantar já ganhou muitos pontos comigo. Ninguém sequer se sentou, e eu já estou disposta a ler várias páginas de pessoas tratando umas às outras com uma educação quase agressiva.
Gosto desse tipo de aviso antecipado. Um convidado escolher um lugar perto da porta, um anfitrião insistir para que todos fiquem para a sobremesa: tudo isso poderia ser perfeitamente inocente. Depois do anúncio da prisão, eu leria cada detalhe com desconfiança. Continuaria querendo saber quem será preso, mas também me interessaria saber por quanto tempo todos conseguiriam fingir que é um jantar agradável.
The dining room at Newark Park, Gloucestershire. An ordinary room for an imagined tense dinner.Acabashi · CC BY-SA 4.0
Uma sinopse de contracapa que revela uma surpresa que o livro está guardando me irrita. Só estou tentando decidir se quero ler o livro. Mas um título de capítulo faz parte do ritmo da história. Quem escreveu decidiu me contar agora, e por mim tudo bem.
Depois que o título já me contou, porém, quero que o narrador continue logo com o jantar. Mais quatro páginas insinuando que algo terrível está por vir colocariam minha paciência à prova. Sim, a prisão. Já ficou claro que haverá uma prisão. Que discutam sobre as batatas.
An actual flashlight disassembled into its working parts, photographed in 2015.Dmitry G · CC BY-SA 3.0
Gosto mais dos desenhos em vista explodida quando ainda consigo reconhecer o objeto. São desenhos que mostram algo desmontado, com as peças alinhadas na posição certa. Uma lanterna pode ser esticada até virar uma fila: tampa traseira, mola, pilha, carcaça, o cone brilhante atrás da lente e, por fim, a própria lente. Se as peças ficarem afastadas demais, perco a noção de como encaixam. Se as juntarmos, as partes interessantes desaparecem.
É a mola que me chama a atenção. Uma forma tão pequena, tão comum, mas basta pôr a mola entre a tampa e a pilha para começar a perceber para que serve: mantém a pilha pressionada no lugar para que o contato elétrico não se perca. Ali, ela me interessa mais do que numa imagem bonita de uma mola sozinha. Preciso dos vizinhos.
E gosto que o desenho me deixe olhar sem pressa. Nada cai, e ninguém precisa segurar nada no lugar. Nenhuma pecinha precisa ir para um saquinho enquanto se retira a próxima. Tudo pode ficar meio desmontado enquanto eu quiser continuar olhando.
Um zíper parado a meio caminho mostra duas coisas ao mesmo tempo: fileiras separadas acima do puxador, uma faixa unida abaixo. Gosto de poder acompanhar essa mudança sem desmontar a peça. O pequeno puxador faz quase todo o percurso; os dentes ficam no mesmo lugar.
Prefiro a imagem de perto. O que de longe parece uma linha lisa é, na verdade, um monte de pequenos encaixes, com cada fileira agarrada à outra. Se deixar tudo arrumado demais, a parte interessante desaparece. É um pouco ridículo haver tanto para ver numa coisa cuja única função é abrir e fechar.